O óleo de palma pode ser sustentável?

Muito se tem falado das condições e consequências ruins da industria de óleo de palma mundo afora. Também se ouve falar das inúmeras ações desencadeiadas para minimizar estes efeitos negativos e fazer desta industria uma industria sustentável. O difícil é peneirar estas fartas informações na midia e ter uma visão clara e insenta de partidarismo. Este artigo foi publicado originalmente em 2011 na 2degreesnetwork e reimpresso em 2012 na makingitmagazine: http://www.makingitmagazine.net/?p=5467#bio .Achei interessante e traduzi, dá uma visão geral e procura ser isenta.

O óleo de palma pode ser sustentável?
Johanna Sorrell pergunta se a produção sustentável em grande escala de óleo de palma, é uma opção viável para a indústria de óleo de palma.

Cerca de 50 milhões de toneladas de óleo de palma são produzidas a cada ano, e com certeza esse número só vai subir. A demanda tem sido impulsionada pela produção, que no caso do óleo de palma, é quase seis vezes maior, por hectare,  do que o óleo de canola. Tendo em conta estes rendimentos excepcionais, os agricultores começaram a plantar palmeiras a um ritmo veloz, levantando preocupações sobre seus impactos ambientais e culturais. Como resultado, vários grupos de defesa acusaram o aumento da produção de óleo de palma por criação de práticas agrícolas prejudiciais, destruindo florestas vulneráveis e turfeiras, e ter consequências negativas para as culturas nativas. Hoje, cerca de 8% de óleo de palma é produzido por padrões “sustentáveis” que tentam mitigar os danos da produção em massa de óleo de palma por meio de métodos de produção menos invasivos. No entanto, a produção de óleo de palma sustentável pode ser mais caro e menos eficiente do que a produção tal como ela é.

A onipresença de óleo de palma
Nos últimos trinta anos, a produção do óleo de palma tem estado em um crescimento exponencial. Espera-se que o consumo anual do óleo de palma aumente de seus níveis atuais de 38 milhões de toneladas para 63 milhões de toneladas em 2015, e ascenderá à 77 milhões de toneladas até 2020. A Indonésia é o maior produtor mundial de óleo de palma, mas um número crescente de países estão se tornando concorrentes viáveis no mercado global de óleo de palma, incluindo Malásia, Colômbia, Brasil, Nigéria, Libéria, Tailândia e Uganda.

Um trabalhador aplica o herbicida Paraquat em uma plantação de óleo de palma, nos arredores de Kuala Lumpur. O Paraquat é proibido na União Europeia, no entanto, milhões de trabalhadores do campo em toda a Ásia usam o produto químico para matar ervas daninhas e como resultado, alguns enfrentam sérios riscos de saúde.

Este crescimento é impulsionado não só pelo custo-eficácia do óleo de palma, mas também pelas suas múltiplas aplicações no desenvolvimento e produção de uma variedade de gorduras e alimentos, como pães, leite condensado e em pó, batatas fritas, alimentos concentrados e suplementos para alimentação animal. O óleo de palma também atinge os não-comestíveis, como sabões, detergentes, cosméticos, velas, cola, tintas de impressão, lubrificantes para máquinas e biocombustíveis. Por ser usado em tal variedade de produtos, as indústrias que são altamente dependentes do óleo de palma,  seriam duramente pressionadas para encontrar uma alternativa adequada de alto rendimento e custo-eficaz.

 

 

Todos os fins  ou todos os problemas do óleo?
O rápido crescimento da indústria de óleo de palma tem trazido a degradação de grandes extensões de solos frágeis. A fim de produzir óleo de palma em escala, muitas plantações têm utilizado técnicas destrutivas de corte-e-queima transformando florestas em fileiras sem fim de palmeira de palma, substituindo os ecossistemas dinâmicos da floresta pela monocultura. Danos aos ecossistemas incluiem:

  • a destruição das florestas tropicais para dar lugar a nova produção de óleo de palma;
  • a descarga de efluentes das fábrica de óleo de palma que mata a fauna aquática;
  • o deslocamento de povos nativos e agricultores de subsistência;
  • a perda de habitat e a conseqüente perda de vida selvagem, com um impacto especialmente negativo sobre as populações globais de orangotangos, e
  • a queima e drenagem de grandes extensões de terras de turfa, que são importantes absorvedores de CO2.

Certas corporações, tanto produtores como compradores, têm sido alvo de organizações de defesa pelo seu envolvimento, direto ou indireto, em tais práticas. Campanhas de marketing social têm se mostrado muito eficazes em iniciar modificação de comportamentos de compras corporativas e de sourcing, um exemplo é o vídeo do Greenpeace viral Kit Kat pedindo para a Nestlé parar de comprar óleo de palma de terras das florestas destruídas. Como resultado da campanha, a Nestlé imediatamente parou de comprar óleo de palma da Sinar Mas (maior empresa de óleo de palma e polpa da Indonésia, um plantador  que o Greenpeace afirma abertamente que destrói a floresta para expandir as plantações de palmeiras). A Nestlé também conectou se à The Forest Trust (uma instituição de auxílio que trabalha para deter o corte ilegal pelo rastreamento dos produtos de consumo à sua fonte), que irá ajuda-la nas orientações para a compra de óleo de palma mais sustentável. A Nestlé esta comprando 18% do seu óleo de palma de fontes “verdes”, e deverá chegar a 50% até o final de 2011, e tem planos para comprar todo o seu óleo de palma de fontes ambientalmente amigáveis em 2015.

A sustentabilidade é uma opção?
Embora os impactos ambientais e sociais da produção de óleo de palma tem sido fortemente criticado por uma série de partes interessadas, as previsões sombrias e melancólicas podem ser ainda evitados com a implementação de práticas de sustentabilidade que estão em andamento através de esforços concentrados dos setores com e sem fins lucrativos.

Criar o acesso à informação é um componente chave de mudança para muitas organizações ao tentar influenciar uma mudança no comportamento das empresas. Por exemplo, em 2009, o WWF produziu o Oil Buyer Scorecard, essencialmente expondo muitos grandes compradores de óleo de palma que alegaram métodos eco-conscientes de compra, mas ainda não conseguiram cumprir seus próprios padrões.

Muitas grandes empresas começaram a trocar sua produção e compra de óleo de palma para atender grupos de defesa e os interesses dos consumidores. Por exemplo, como parte da Avon’s Hello Green Tomorrow Initiative, a empresa anunciou a Palm Oil Promise – um compromisso global da empresa pelo óleo de palma sustentável, que compromete comprar 100% de óleo de palma sustentável certificada. Outras orientações de sustentabilidade surgiram ao longo dos últimos anos, e as partes interessadas da indústria de grande escala estão começando a implementar normas estabelecidas por essas organizações. O grupo principal – Roundtable on Sustainable Palm Oil (RSPO) – tem trabalhado no sentido de criar, colaborativamente, um conjunto de normas globais para orientar a indústria de óleo de palma em direção à sustentabilidade. Atualmente, a RSPO tem mais de 400 membros, incluindo ONGs, investidores, produtores de óleo de palma, e grandes corporações, incluindo Unilever, a Cognis, e IOI.

Embora a RSPO seja a maior organização de responsabilidade sobre a sustentabilidade da indústria de óleo de palma, é também uma organização baseada em grande parte em normas voluntárias. Sem surpresa, numerosas organizações ativistas acusam a RSPO de “etiqueta-verde “, e identificam que vê lacunas importantes nos princípios e critérios estabelecidos nas normas criadas pela RSPO. Por exemplo;

  • Friends of the Earth acusou a RSPO de ser uma “ferramenta limitada de tecnicidade”, que não é capaz de tratar adequadamente os impactos terríveis do cultivo de óleo de palma sobre as florestas, terras e comunidades”;
  • Greenpeace é tanto defensor como crítico da RSPO, mas notou o desmatamento contínuo por empresas que são membros da RSPO e
  • A Rainforest Action Network também apoia os esforços determinados da RSPO, mas expressou insatisfação intensa com alguns dos processos da RSPO.

Criar e falar sobre padrões é uma coisa, implementá-las é outra história. Para endereçar isso, o GreenPalm, um programa negociado de certificados, desenhado para ajudar a garantir a produção sustentável de óleo de palma, já foi iniciada. GreenPalm serve como uma forma de “meio de campo”, ajudando os compradores de óleo de palma a comprar créditos de certificados para “compensar” as suas compras, principalmente devido ao fato de que comprar diretamente de uma fonte segregada de óleo de palma produzido de forma sustentável, muitas vezes é extremamente difícil. Cada crédito comprado representa um prêmio pago aos produtores sustentáveis para uma tonelada de óleo de palma, ajudando a garantir e reforçar a sustentabilidade da cadeia de suprimento. Embora esses sistemas estejam longe de serem perfeitos, eles estão evoluindo como ferramentas na responsabilidade pela produção mais sustentável do óleo de palma., e esperamos que continue a evoluir realmente e atinja padrões sustentáveis do plantio à compras.

Para onde vamos a partir daqui?
A maior demanda e o maior consumo, juntamente com a falta de terras disponíveis devido à concorrência com outras culturas, e a disputa com as partes interessadas, farão a produção de óleo de palma mais difícil no futuro. Sem um fim de curto prazo à vista para a crescente demanda por óleo de palma, pemanecerá a dúvida se a indústria de óleo de palma será capaz de manter os atuais níveis de produção, se as medidas de sustentabilidade forem aplicados em toda a cadeia, que causa preocupações da industria com os grandes investimentos necessários. A educação dos consumidores e da indústria, bem como as oportunidades para engajamento em todos os níveis, vão desempenhar um papel importante pois a produção inevitavelmente continua – de forma sustentável ou não.

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